Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

DIÁRIO 89

Criando memórias desde 1989

04
Nov19

Aquele mais

Cuidar de pessoas com idades avançadas, significa numa boa parte das vezes, cuidar de pessoas no fim das suas vidas. Quando por vários motivos, não há cura, tratamento ou melhoria possível, entramos no mundo dos cuidados paliativos, onde o conforto é a palavra chave.
Nem sempre é fácil confortar uma pessoa que para além da dor, sofre com a angústia de estar a morrer. Não trabalhando num serviço que se dedica exclusivamente a cuidados paliativos, ainda menos. Fazemos o nosso melhor com os meios que temos, pelo que não são poucas as vezes que sentimos que poderíamos fazer mais, por alguém que está prestes a despedir-se deste mundo.
Porém há umas semanas, fizemos esse mais. Aquele mais que nos confortou o coração, a nós cuidadores, à família e aquele doente que entretanto partiu. Esse mais, era um pedido bastante simples do filho: uma visita do cão ao seu pai. Num ambiente hospitalar não é o mais indicado, mas depois de ponderar e tomadas as devidas precauções, acabamos por autorizar.
No dia seguinte, estava eu no corredor do serviço, quando vejo um ser diferente por ali. Lá estava o cão no colo do filho do doente, o qual vinha com um sorriso estampado no rosto. Confidenciou que o pai tinha estado mais alerta, comunicativo e tinha sorrido para eles, o que era raro naqueles últimos dias. Quanto ao cão, esse aninhou-se bem junto do dono, tais eram as saudades que tinha e que ficariam para sempre, a partir dali.
Quanto a mim, pensei que se estivesse naquela situação ia desejar o mesmo, não fosse o meu cão ter falecido há dois anos. Nisto, fui invadida de uma sensação de dever cumprido, mas também de uma enorme saudade pelo ser de quatro patas que tanto amei e continuo a amar.

22
Out19

O vestido

IMG_20191017_231342.jpg

O meu vestido de noiva faz parte das melhores recordações que ficaram do nosso casamento. Dou por mim cheia de saudade, quando vejo um casamento em algum filme ou programa de televisão. Fico com vontade de voltar a vesti-lo e sentir-me como naquele dia. Vestida de branco, tule e renda, sentia-me linda por fora mas sobretudo por dentro. Apesar do comprimento do vestido, do saiote, do imenso véu e dos enormes saltos de doze centímetros, sentia-me leve. Leve e imensamente feliz.

07
Ago19

Aquele mês de Agosto

E-SESSION-J&G-32.JPG

Não fosse eu ser uma pessoa feita de saudade, era mais que previsível este aperto no peito nesta altura do ano. O mês de Agosto de 2018 foi sem sombra de dúvida, o Agosto mais intenso da nossa vida. Por esta altura andávamos na azáfama dos preparativos de um dia, que ainda mal sonhávamos, o quão único ele se tornaria. Foram dias cansativos que suportamos sem nenhum queixume, pois estávamos felizes e ansiosos. Dá para voltar àquele mês de Agosto?

06
Nov18

A Nossa Vez

IMG_20180825_134839_234.jpg

Acordei pensando "É hoje!". O dia começou de forma normal, sem ti ao meu lado, visto termos passado esta última noite a sós. Tomei o pequeno-almoço, fui buscar as flores e ainda dei uma arrumadela à casa, coisas normais do quotidiano, num dia que tinha tudo para ser fora do comum.
A maquilhadora e a cabeleireira foram as primeiras a aparecer em casa. De armas e bagagens, foram-se instalando para me transformarem numa princesa. Fomos conversando serenamente de tudo e de nada. Confidenciaram-me que estavas tranquilo quando te viram momentos antes, o que me surpreendeu, por seres de natureza um pouco nervoso.
Assim que elas terminaram, eu já só queria vestir o vestido. Esperei pelas damas de honor, e por momentos senti uma ponta de stress aparecer. Duas delas acabaram por chegar, e sem mais demoras vestiram-me num misto de alegria e emoção. Corri receber os meus convidados, e entre beijos, abraços e fotografias a derradeira hora chegara.
Entrei no carocha branco dos anos 60 com os meus dois anjinhos, e lá fomos nós em direção à igreja. Entre o espanto de um em andar num carro sem cinto, e o choro de outro por o carro ter tido dificuldade a pegar, houve um momento em que fui invadida por uma enorme emoção. Aquele era o momento.
Assim que chegamos, o meu pai veio buscar-me ao carro para me acompanhar ao altar. A magnífica Ave Maria de Schubert estava a ser cantada quando entrei na igreja, a qual deixei de ouvir assim que comecei a ver os rostos familiares que foram surgindo à minha frente. Acabei presa no teu olhar e no teu melhor sorriso.
Com muita emoção e um pouco de nervos à mistura, a cerimónia decorreu melhor que o esperado. O sacramento do matrimónio, as leituras lidas pelas melhores, o rito judaico e uma declaração de gratidão dirigida aos nossos pais. Não faltaram os sorrisos, as lágrimas, os risos e até as palmas.
Saímos da igreja cobertos pelo meu véu rendado, sobre um manto de capas negras, debaixo de uma chuva de arroz e purpurinas. Beijos, abraços e mil desejos de felicidade. A festa ainda ia no início e os comentários sobre estar tudo a ser magnífico já se faziam ouvir.

19
Jun18

Aos teus entas irmã

Hoje poderia dizer tanta coisa sobre uma das pessoas mais importantes da minha vida, mas o meu peito enche-se de saudade, o que torna complicado exprimir-me sem que uma lágrima se solte.
Só quero dizer que apesar de entrares nos temidos "entas", a idade é apenas um número e que esse número dá vontade de rir quando olhamos para ti.
Sorri quando olhares para trás, e vê o quanto acreditaste em dias melhores mesmo que a vida te tenha pregado partidas. Se há um ano o teu dia foi passado numa cama de hospital achando que tinhas perdido o teu filho, hoje olha para os teus braços e enche-o de mimo.
Com o melhor presente que a vida te podia dar, seria perfeito se estivéssemos todos juntos, mas melhores dias virão! Por isso mesmo à distância, estarei presente de todo coração para te dizer que os quarenta te ficam maravilhosamente bem, e que nada neste mundo pode-nos separar.

Sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

diariooitentaenove@gmail.com