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DIÁRIO 89

Criando memórias desde 1989

04
Nov19

Aquele mais

Cuidar de pessoas com idades avançadas, significa numa boa parte das vezes, cuidar de pessoas no fim das suas vidas. Quando por vários motivos, não há cura, tratamento ou melhoria possível, entramos no mundo dos cuidados paliativos, onde o conforto é a palavra chave.
Nem sempre é fácil confortar uma pessoa que para além da dor, sofre com a angústia de estar a morrer. Não trabalhando num serviço que se dedica exclusivamente a cuidados paliativos, ainda menos. Fazemos o nosso melhor com os meios que temos, pelo que não são poucas as vezes que sentimos que poderíamos fazer mais, por alguém que está prestes a despedir-se deste mundo.
Porém há umas semanas, fizemos esse mais. Aquele mais que nos confortou o coração, a nós cuidadores, à família e aquele doente que entretanto partiu. Esse mais, era um pedido bastante simples do filho: uma visita do cão ao seu pai. Num ambiente hospitalar não é o mais indicado, mas depois de ponderar e tomadas as devidas precauções, acabamos por autorizar.
No dia seguinte, estava eu no corredor do serviço, quando vejo um ser diferente por ali. Lá estava o cão no colo do filho do doente, o qual vinha com um sorriso estampado no rosto. Confidenciou que o pai tinha estado mais alerta, comunicativo e tinha sorrido para eles, o que era raro naqueles últimos dias. Quanto ao cão, esse aninhou-se bem junto do dono, tais eram as saudades que tinha e que ficariam para sempre, a partir dali.
Quanto a mim, pensei que se estivesse naquela situação ia desejar o mesmo, não fosse o meu cão ter falecido há dois anos. Nisto, fui invadida de uma sensação de dever cumprido, mas também de uma enorme saudade pelo ser de quatro patas que tanto amei e continuo a amar.

07
Set19

A vida é bela

Antigo lutador de boxe inglês e tailandês, com o seu francês arranhado pelo sotaque sérvio, de físico outrora imponente, cicatrizes os braços cheios, hoje preso a uma cadeira de rodas, trocada por um andarilho nos melhores dias. Esta é mais uma das pessoas que o trabalho me deu a conhecer.
Ele conheceu as maravilhas do mundo, viu a maior riqueza mas também a mais profunda miséria. Foi recebido duas vezes pelo antigo rei da Tailândia, e até teve a sua escola de boxe em Bangkok. Estas e tantas outras histórias partilhadas por um homem de sorrisos e de enorme gentileza.
Um dia ao fim de mais um turno, rodeado por mim e duas colegas, disse-nos o quanto estava feliz por estar ali rodeado de três mulheres bonitas. Prosseguiu contando-nos que nessa tarde, tinha recebido a visita das netas, que são sempre muito amáveis e trazem sempre o sorriso no rosto. Respondi-lhe que não é de admirar, pois o avô também sorri sempre. Ao que ele diz que sim pois "A vida é bela!". Fui apanhada de surpresa pela resposta, o que me aqueceu ainda mais o coração. Tão bonito e tão raro de se ouvir por ali.
A maior parte daqueles que cuido, estão cansados de viver, dizem-me imensas vezes para não envelhecer, para aproveitar enquanto somos jovens. Trabalhar com estas pessoas é sem dúvida uma aprendizagem constante, onde temos de filtrar o fundamental.
Quero um dia ser como este lutador, que conta as suas aventuras com um brilho nos olhos, de felicidade e não de arrependimento. Que apesar do físico mais abatido, braços marcados de feridas saradas, transparece um coração de bondade imensa. Que o sorriso é tão grande que explode pelos olhos. E que acima de tudo, continua a amar a vida.

27
Abr19

1912

É impossível não nos sentirmos privilegiados quando cuidamos de pessoas centenárias. Sinto sempre uma curiosidade e admiração enorme. Esta semana conheci mais uma dessas pessoas, com a bela idade de 107 primaveras! Penso ter sido a pessoa mais velha que até agora conheci. Nascida em 1912, dá para imaginar a vida deste ser que passou por tantas épocas diferentes?

10
Fev17

Cuidar dos teus quase meus

Já aconteceu algumas vezes cuidar de familiares de colegas de trabalho no meu serviço. Recentemente tem sido a avó de uma colega, a qual têm sido recorrentes as suas hospitalizações nos últimos meses. Devido às suas várias "estadias", ela acabou por se tornar conhecida de todos, pelo que toda a gente a mima e a adora pelo seu carácter forte! Há umas semanas atrás, transferimos-a para outro serviço visto que uma complicação tinha surgido após uma intervenção que ela tinha sido sujeita. Vi na cara da médica do serviço que a coisa parecia séria. Após umas semanas a ser acompanhada na especialidade devida, ela regressou ao nosso serviço num estado que nunca a tínhamos visto. Bastante degradada, confusa e obviamente sem sinais de melhoria. A minha colega foi receber a avó assim que a viu chegar, mas rapidamente deixou-nos sermos nós a instala-la devidamente no quarto, voltando mais tarde. Quando voltou, falou para a avó que ainda estava bastante confusa, e deu-lhe vários beijos no rosto começando a chorar. Foi tão difícil conter as lágrimas ao assistir a este momento, mas foi ainda pior sentir que daqui para a frente as coisas poderão se tornar mais duras.

Ao fim do turno ela já abria os olhos e já se ria para nós, e a memória que já lhe falha começava a voltar. Ficamos felizes por ver a avó da nossa colega um pouco melhor. A avó dela e quase nossa, depois de tantas vezes que cuidamos dela. Esta será mais uma, na qual daremos o nosso melhor.

22
Mai16

Dois anos a sorrir

Há dois anos atrás por esta hora eu não imaginava a luta que me esperava para voltar a sorrir. Uma luta que me devolveu um novo sorriso pelo qual eu batalhei.
Recentemente ao cruzar-me com uma paciente, parece que vi o meu próprio reflexo de há dois anos, quando olhei para ela a primeira vez. Percebi logo que ela não tinha sofrido um AVC, mas sim uma paralisia facial tal como eu. Conversamos e acabei por lhe contar que passei pelo mesmo, ainda que de forma reversível, ao contrário dela. Percebi-lhe a dor, e foi bom sentir que a suavizei ao contar a minha própria história. Uma história que é agora passado, um passado que doeu, mas do qual saí mais forte. 
Tenho plena consciência que este problema não foi nada de grave, o que eu só posso agradecer a Deus, porém não deixou de ser uma longa batalha! Qualquer que seja o problema que se apresente nas nossas vidas, temos sempre de pensar que há alguém pior que nós, porque é a mais pura verdade. É isto que vou transmitindo àqueles que vou cuidando, quando os sinto mais em baixo... porque eu também já estive mais em baixo, e sei que às vezes nos esquecemos disso mesmo: que somos afortunados com coisas bem simples, que nestes momentos parecemos esquecer.
Sei que nunca me esquecerei desta página que virei, a qual espero não voltar a ler, esperando unicamente que a vida continue a fazer-me sorrir!

25
Dez15

Santa Claus is coming to work

Se há um ano passava este dia no alto da Tour Eiffel a deslizar maravilhada na pista de gelo, este ano não tenho a mesma sorte! Este Natal será partilhado com os meus colegas de trabalho e com aqueles que infelizmente não estão com saúde suficiente para estar no conforto dos seus lares. Vamos lá trabalhar cheios de espírito natalício!

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