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DIÁRIO 89

Criando memórias desde 1989

27
Abr19

1912

É impossível não nos sentirmos privilegiados quando cuidamos de pessoas centenárias. Sinto sempre uma curiosidade e admiração enorme. Esta semana conheci mais uma dessas pessoas, com a bela idade de 107 primaveras! Penso ter sido a pessoa mais velha que até agora conheci. Nascida em 1912, dá para imaginar a vida deste ser que passou por tantas épocas diferentes?

10
Fev17

Cuidar dos teus quase meus

Já aconteceu algumas vezes cuidar de familiares de colegas de trabalho no meu serviço. Recentemente tem sido a avó de uma colega, a qual têm sido recorrentes as suas hospitalizações nos últimos meses. Devido às suas várias "estadias", ela acabou por se tornar conhecida de todos, pelo que toda a gente a mima e a adora pelo seu carácter forte! Há umas semanas atrás, transferimos-a para outro serviço visto que uma complicação tinha surgido após uma intervenção que ela tinha sido sujeita. Vi na cara da médica do serviço que a coisa parecia séria. Após umas semanas a ser acompanhada na especialidade devida, ela regressou ao nosso serviço num estado que nunca a tínhamos visto. Bastante degradada, confusa e obviamente sem sinais de melhoria. A minha colega foi receber a avó assim que a viu chegar, mas rapidamente deixou-nos sermos nós a instala-la devidamente no quarto, voltando mais tarde. Quando voltou, falou para a avó que ainda estava bastante confusa, e deu-lhe vários beijos no rosto começando a chorar. Foi tão difícil conter as lágrimas ao assistir a este momento, mas foi ainda pior sentir que daqui para a frente as coisas poderão se tornar mais duras.

Ao fim do turno ela já abria os olhos e já se ria para nós, e a memória que já lhe falha começava a voltar. Ficamos felizes por ver a avó da nossa colega um pouco melhor. A avó dela e quase nossa, depois de tantas vezes que cuidamos dela. Esta será mais uma, na qual daremos o nosso melhor.

22
Mai16

Dois anos a sorrir

Há dois anos atrás por esta hora eu não imaginava a luta que me esperava para voltar a sorrir. Uma luta que me devolveu um novo sorriso pelo qual eu batalhei.

Recentemente ao cruzar-me com uma paciente, parece que vi o meu próprio reflexo de há dois anos, quando olhei para ela a primeira vez. Percebi logo que ela não tinha sofrido um AVC, mas sim uma paralisia facial tal como eu. Conversamos e acabei por lhe contar que passei pelo mesmo, ainda que de forma reversível, ao contrário dela. Percebi-lhe a dor, e foi bom sentir que a suavizei ao contar a minha própria história. Uma história que é agora passado, um passado que doeu, mas do qual saí mais forte. 

Tenho plena consciência que este problema não foi nada de grave, o que eu só posso agradecer a Deus, porém não deixou de ser uma longa batalha! Qualquer que seja o problema que se apresente nas nossas vidas, temos sempre de pensar que há alguém pior que nós, porque é a mais pura verdade. É isto que vou transmitindo àqueles que vou cuidando, quando os sinto mais em baixo... porque eu também já estive mais em baixo, e sei que às vezes nos esquecemos disso mesmo: que somos afortunados com coisas bem simples, que nestes momentos parecemos esquecer.

Sei que nunca me esquecerei desta página que virei, a qual espero não voltar a ler, esperando unicamente que a vida continue a fazer-me sorrir!

25
Dez15

Santa Claus is coming to work

Se há um ano passava este dia no alto da Tour Eiffel a deslizar maravilhada na pista de gelo, este ano não tenho a mesma sorte! Este Natal será partilhado com os meus colegas de trabalho e com aqueles que infelizmente não estão com saúde suficiente para estar no conforto dos seus lares. Vamos lá trabalhar cheios de espírito natalício!

26
Nov15

Cantam as nossas almas

No serviço onde trabalho, quando sabemos que um doente faz anos temos a possibilidade de pedir um bolo de aniversário para a hora de almoço. Um gesto simpático para aquelas pessoas que se encontram internadas durante um longo período de tempo, e para aqueles que nem sempre têm visitas, ou mesmo nenhumas. 

No mês passado, uma doente que lá se encontra há um longo período de tempo e a qual é bastante querida, celebrou os seus oitenta e seis anos, e obviamente que não quisemos deixar passar a data em branco.

Com o seu estado de saúde estabilizado em relação aos dias precedentes, convencemos a senhora a ir almoçar com os outros pacientes na sala de refeições, sob o pretexto de ser o seu aniversário e que lhe faria bem ver um pouco outras pessoas. Lá aceitou, sem suspeitar da surpresa que a aguardava.

Ao fim do almoço aparecemos com o bolo e cantamos-lhe os parabéns. Bastante surpreendida, a senhora acabou por largar lágrimas de emoção. E nós continuamos a cantar, tentando esconder a emoção que também sentimos naquele instante.

Um momento tão simples e fácil de proporcionar que preencheu o coração a todos! É tão fácil fazer os outros felizes e sentirmos essa felicidade simultaneamente, não é?

12
Nov15

Gestos motivadores

Com a minha mudança de turno no trabalho, do nocturno para o diurno, além de estar mais em contacto com toda a equipa multidisciplinar, estou também mais próxima das famílias dos doentes. Esse facto pode ser bom, quando as famílias são compreensivas, mas por vezes pode ser horrível, quandos estas se acham autênticos senhores doutores e fazem do nosso dia de trabalho um autêntico inferno.

Até hoje, felizmente, tenho lidado com familiares simpáticos. Tão simpáticos que já por duas vezes saio do quarto do doente com uma bonita caixa de chocolates. Gestos como estes enchem-nos de motivação e de ânimo. Chocolate a chocolate, enche a enfermeira o papo!

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