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DIÁRIO 89

Criando memórias desde 1989

04
Nov19

Aquele mais

Cuidar de pessoas com idades avançadas, significa numa boa parte das vezes, cuidar de pessoas no fim das suas vidas. Quando por vários motivos, não há cura, tratamento ou melhoria possível, entramos no mundo dos cuidados paliativos, onde o conforto é a palavra chave.
Nem sempre é fácil confortar uma pessoa que para além da dor, sofre com a angústia de estar a morrer. Não trabalhando num serviço que se dedica exclusivamente a cuidados paliativos, ainda menos. Fazemos o nosso melhor com os meios que temos, pelo que não são poucas as vezes que sentimos que poderíamos fazer mais, por alguém que está prestes a despedir-se deste mundo.
Porém há umas semanas, fizemos esse mais. Aquele mais que nos confortou o coração, a nós cuidadores, à família e aquele doente que entretanto partiu. Esse mais, era um pedido bastante simples do filho: uma visita do cão ao seu pai. Num ambiente hospitalar não é o mais indicado, mas depois de ponderar e tomadas as devidas precauções, acabamos por autorizar.
No dia seguinte, estava eu no corredor do serviço, quando vejo um ser diferente por ali. Lá estava o cão no colo do filho do doente, o qual vinha com um sorriso estampado no rosto. Confidenciou que o pai tinha estado mais alerta, comunicativo e tinha sorrido para eles, o que era raro naqueles últimos dias. Quanto ao cão, esse aninhou-se bem junto do dono, tais eram as saudades que tinha e que ficariam para sempre, a partir dali.
Quanto a mim, pensei que se estivesse naquela situação ia desejar o mesmo, não fosse o meu cão ter falecido há dois anos. Nisto, fui invadida de uma sensação de dever cumprido, mas também de uma enorme saudade pelo ser de quatro patas que tanto amei e continuo a amar.

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